15 anos
Era a história de um homem, sim, era. Estava
na fase, tinha cabelos longos para cabelos de homem, era forte, malhava, voz
áspera, olhos firmes, era um de escorpião com sagitário, mas isso não importa,
mesmo que seja uma regra, ele era a exceção.
Tinha acabado de ligar o som, ele gostava de blues,
jazz, Mpb, das músicas tristes, ele gostava. Amava a dor, o sofrimento.
Caminhava para sua temporária liberdade no claustro do próprio banheiro, ia se
banhar. Ah! o banho.
Começava no quarto, ao tirar peça por peça de
roupa: primeiro a camisa, depois a bermuda, resistia um muito, mas tirava
também a cueca. Enquanto caminhava pra pegar uma toalha, a de sua preferência –
a azul, grande e felpuda, sempre parava diante do espelho e se observava, via
como era bonito, em meados de sua visualização não era tão bonito, no fim do
seu se ver nem mais ele próprio estava a ver, pois o que enxergava era o caos
das perguntas mais difíceis se revoltando e tomando posse da situação ao mesmo
tempo em que se tocava, no rosto, seu pescoço, seus braços, peitos, barriga
(aos curiosos? sim, a mão continua descendo... embora não quisesse, embora não
pudesse!): Quem sou eu? Onde estou? Porque sou eu? O que eu estou fazendo? Sua
liberdade alçava cada vez mais voo.
Uma campanhinha! Tsc, tsc... Definitivamente, PARA A PORRA TODOS, ESTOU NO
BANHO! E num som misturado, por um bom tempo, de campanhinha e MPB seguiu em
duas faces, na verdade uma: meia chorando, meia sorrindo, meio confuso, não,
meia certeza e meia outra certeza.
Chegou à porta do banheiro, uma apatia lhe
abateu. Parado, nu, com uma toalha no ombro (ia se enrolar nela, mas desistiu
no andar das coisas), pensava nada por um bom tempo. De repente, tão quão De
Moraes, não mais que de repente, viu, como nunca tinha visto que seu banheiro
era triangular, que loucura... mas era! Não quis o espelho, lembrou que ele é
traiçoeiro. Descalço, pôde verificar a frieza contida na cerâmica, chegou a uma
conclusão: ela não é fria, é sensível. Adorando isso tudo, entrou deveras no
banho; junto ao chuveiro uma pequena estante de banheiro, na qual continham...
(desculpe fui comer uma castanha!) na qual
continham sabonetes em barra, sabonetes líquidos, hidratantes, gel, xampus,
condicionadores e outras peripécias que nos levam à pergunta, só resta saber
qual: De quê ele quer tanto se limpar? ou, Pra quê ficar tão limpo?
Ligou o chuveiro, que adoração! As gotas
caíam rígidas, rápidas, faziam um balé contornando/esculpindo as formas do
rapaz, a água tinha esse poder? Sim, até mais, a campanhinha já havia parado de
tocar e ao provocar sua primeira catarse ele ouviu somente a música, o som com
gosto de morangos da água provando o rapaz e o som de suas lágrimas se
misturando às outras gotas.
Pegou o sabonete em barra, o chuveiro
continua aberto, ele continua embaixo da água. O sabonete está morrendo, como
um leproso vai soltando pedaços, se desmanchando; o rapas? adora essa morte,
ele depende dessa morte para viver, isso dá prazer. Uma dicotomia surreal: a
morte e a vida, os gritos do sabonete e os gemidos do rapaz.
Ele o esfregava pelos lugares todos do corpo,
começava pelas pernas, subia pelas coxas, após, a virilha, conseguia resistir e
pulava para o umbigo. Esfregava ainda o peito, os braços, e alcançava o
pescoço, o lugar que lhe ouriçava, num movimento de baixo para cima esfregava,
arrepiando-o, intumescendo-lhe lá e nos mamilos, era o prazer dizendo “oi! Como
vai? PRAZER em conhecê-lo” numa posição que no mínimo seria uma depravação
angelical semi-ejaculativa, se é que se é que existe: a segunda catarse.
A água continua, a sujeira sai com o sabão
como um rio tépido e também sujo, afinal o que é sujeira? Não sei.
Fecha, ele, o chuveiro, o corpo respinga, os
olhos secos, não mais olha pra cima, mas para baixo, acabou-se a dualidade, a
cara não nega: ele pode, ele quer ele vai fazer; é viril, homem macho,
bicho-macho, não precisa falar o sabonete líquido já está sobreposto ao corpo,
a bucha já foi passada, mas o que ele busca na realidade é outra coisa, com o
corpo espumado, ele ligeiramente escorrega a mão ao que não está espumado, mas
lubrificado. “Segura, é sua ou não é?” e então “ele” reage convidando-o a fazer
um carinho, ou até mesmo dar uma surra. Na pica, sim, na pica, no pau, na rola,
ereta, tesa, intumescida. Num movimento com a mão esquerda ele acalenta o
órgão, busca pensar em algo, mas não é necessário, o cenário já dá a orgia
precisa.
Sua mão acelera, num movimento de vai e vem
incontrolavelmente rápido, ele quase cai, não sabe mais que ele não é, vira essência,
perde controle de tudo, as paredes são seu refúgio , ele vai escorregando,
pensa em sexo, no seu sexo, numa, noutra, noutro, não é mais homem, é uma
vadia, uma puta, se contorcendo no que para ele é um coito, “vai... piranha, o
chão é seu!”, grita, geme, se dá uma surra, as pernas como elásticos, ele já
estava deitado, a outra mão rasgava o chão, ele conseguia tirar as costas do
chão, “isso!”, todo arrepiado percebe que o cenário, mesmo perfeito, cede aos
seus pensamentos, então ele como uma bela puta que é come todos, dá a todos,
prazer, carne, sensualidade, o céu e o inferno, são três, não, são seis, o
corpo reage, sem saber como, o chuveiro já está aberto exatamente em sua cara
e, numa dança, os gozos explodem. O gozo de um sabão líquido se misturando a
outro em sua mão, são texturas iguais, proporcionando limpezas diferentes, ou
ele está sujo? Ao mesmo tempo em que a água bate em sua cara, em sua boca
aberta que pede cada vez mais... Mais tudo. Imagine! (...) Não, não imagine, já
não falamos de uma puta, no entanto de uma virgem, não mais pois fora
estuprada, principalmente na alma, o homem-mulher se levanta com medo de si,
com nojo de si, e tentando se abraçar ao mesmo que se esfregava para retirar o
resto dos sabonetes líquidos. O som acaba, é seu despertador; quando sai só se
percebe na frente do traiçoeiro espelho com a toalha a nitidamente comê-lo,
fazendo orgias indiscretas, abraçando-o, por todo, beijando-o, não, lambendo=o,
um novo arrepiar-se trouxe a terceira catarse, sim, posto que o que acontecera
antes era uma nova dicotomia: ressurreição X reencarnação.
Ora... o que aconteceu? Já está na esquina,
vestido, dando bom dia, nada aconteceu, era homem de novo. Era.

poetização do erotismo. ou seria erotização da poesia? no fim, uma reflexão sobre a descoberta de uma natureza comum dos seres humanos: um ser movido por instinto, escondido por camadas e camadas de dissimulação. Adorei o texto. Tá de parabéns *--*
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